Haikai da Internet II

26/Julho/2009

Todos vocês já perceberam ao ler o Condado que eu considero o Twitter meio inútil. Fiquei extremamente feliz ao ler hoje de manhã, no Segundo Caderno da edição de hoje (26/07) do jornal O Globo que não sou o único ser humano do planeta que não vê este serviço como uma maravilha da Web 2.0.

Junto comigo está ninguém mais que José Saramago. Abaixo um trecho da entrevista dada ao jornal e ao blog Prosa Online:

O senhor acompanha o fenômeno do Twitter? Acredita que a concisão de se expressar em 140 caracteres tem algum valor? Já pensou em abrir uma conta no site?

SARAMAGO: Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.

Dá-lhe Saramago! E vamos ficar observando os seres humanos andarem contra a evolução novamente.


Inglês Arcaico na cultura atual

30/Janeiro/2008

250px-ShakespeareQuem me conhece sabe que possuo uma certa afeição pelo inglês do início da idade Moderna. O inglês de Shakespeare (foto), como é chamado, devido a este ser provavelmente o autor mais conhecido por esta beleza idiomática.

Não pretendo dar uma aula aqui, já que uma simples googlada já vai ensinar a vocês os básicos do inglês do thou, do thee e do thy. Existe algo mais poético que estes três termos se referindo à segunda pessoa do singular e que as derivações adicionadas ao final dos verbos?

Observem uma tradução da época de uma frase bem conhecida de Cervantes:

  • “Tell me thy company, and I’ll tell thee what thou art.”

    Nesta mesma frase, “Diga-me com quem andas que eu te direi quem és.“, que no inglês atual ficaria “Tell me your company, and I´ll tell you what you are.“, fica bem clara a diferença do pronome sujeito, objeto e do possessivo e também a mudança na terminação da forma verbal are.

    Mas não pensem que este inglês já está morto. Logicamente, ele não é mais falado normalmente em nenhum país, mas muito do conteúdo que nos cerca ainda se utiliza deste idioma estiloso, algumas vezes até com um tom satírico.

    Muitos textos bíblicos, devido à uma tradução oficial para o inglês  tradução ter sido feita nessa época, ainda mantém estes termos, o que faz com que muitas pessoas associem o inglês arcaico exclusivamente à Igreja. Um dos maiores exemplos são os dez mandamentos do livro de Êxodos. Observe a estrutura do primeiro e do nono:

  • Thou shalt have no other gods before me.”
  • Thou shalt not bear false witness against thy neighbor.”

    Em vez do atual You shall ainda se encontra muitas cópias da Bíblia com a tradução na versão do Thou shalt.

    images2Mas não é apenas a Bíblia que mantém o inglês arcaico vivo hoje em dia não. A sétima arte também contribui muito neste campo.

    Em A Volta do Todo Poderoso, no final do filme Morgan Freeman, que interpreta o papel de Deus, faz uma piada recorrente ao resto do filme instituindo um novo mandamento. Logicamente, para ter sido citado nesta dissertação, foi usada a forma antiga da língua. O suposto décimo primeiro mandamento é o seguinte:

  • Thou shalt do the dance!”

    images  Num filme não muito recente, mas compensando a idade com a qualidade da trama, também é possível apreciar esta língua. Em Mudança de Hábito 2, o coral enquanto canta Joyfull, Joyfull  é possível perceber as formas antigas do inglês na letra da canção:

  • “Joyful, Joyful, Lord, we adore Thee. God of glory, Lord of love. Hearts unfold like flowers before Thee. Hail Thee as the sun above.”
  • images3Mas não é de filmes relacionados à Igreja em que é possível conviver com o inglês arcaico. O grande sucesso da Dreamworks, Shrek, também está repleto de expressões datadas dessa época. Nos três filmes já lançados é possível encontrar  várias pérolas deste idioma. No terceiro filme, que está mais recente para eu me lembrar das sentenças é possível perceber, por exemplo, que durante a peça do Encantado (Rupert Everett) ele é incomodado por um coro cantando parabéns pra você da seguinte maneira:

  • “Happy birthday to thee. Happy birthday to thee.”

    images4É lógico que em Shrek não se pode levar tudo a sério. Nem sempre as construções estão corretas, e são apenas para passar a  impressão da época. Por exemplo quando o Burro está na escola, ele recebe um trote e colam na traseira dele um bilhete com a seguinte inscrição:

  • “I suck-eth”

    Um exemplo de uma expressão moderna, adicionada de um prefixo arcaico para causar um efeito no público de aproximação com a época. É claro que a tradução para o português remove qualquer efeito desejado pelo roteirista.

    Nossa, eu realmente estendi bastante este artigo, mas espero que aqueles que tiveram paciência de ler tenham se aproximado desta riqueza cultural e passem a prestar mais atenção em grandes produções que se utilizam deste artefato poético.


  • Conceitos modernos: Mudar, escolher, decidir, errar e se arrepender

    29/Janeiro/2008

    Há muito tempo que falo de mudanças. Muitos já ouviram minhas propostas de melhorias para minha personalidade. A grande maioria nem acredita mais. E eu ainda acredito? Tenho que acreditar. Ela garante esperanças para a vida, faz com que eu creia que ainda tem jeito. No fundo todo mundo gostaria de um ajuste em alguma parte da pessoa.

    Mas mudar não é fácil… E pior é quando a mudança parece ser urgente; quando a não execução dela parece te deixar em apuros, e até mesmo deixar outros em apuros também.

    Porém tem algo mais difícil do que a mudança: a indecisão. Imagine não ter a certeza do que quer ou do que é certo. Não conseguir ver se a mudança foi para melhor ou para pior. Caso possua duas faces, será que foi de fato vantajosa a recriação do seu caráter?

    Dizem que viver é fazer escolhas. E devido às escolhas que vocês fazem, surge um outro conceito: o arrependimento. Com ele, a vontade de corrigir as coisas; e quem sabe, mais arrependimento ainda, por ter piorado a situação. Logo, tentar acertar é uma outra escolha, que pode gerar outro arrependimento e que é um martírio pros indecisos.

    Nessa hora você entende o porquê de tantos filmes e livros sobre viagem no tempo. Quando o homem dominar essa quarta dimensão, os indecisos vão ter o que os falta: certeza. E os arrependidos, vão estar com os cotovelos saudáveis novamente. O mundo seria ideal, mas sem graça.

    Os erros ensinam, mas ensinam da pior maneira possível. É a maneia mais eficiente, diga-se de passagem, porém a que mais deixa marcas.

    Aproveito para fazer propaganda da minha próxima coluna de filmes quando pretendo continuar esse assunto comentando sobre “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças“.

    “Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram o melhor de seus equívocos.”
    (Nietzsche)


    Viajar para dentro – Martha Medeiros

    19/Janeiro/2008

    Os brasileiros estão viajando mais. Não só para Miami, Cancún e Nova York, mas também para o Nordeste, Pantanal e Rio de Janeiro. Pouco importa o destino: a verdade é que os pacotes turísticos e as passagens mais baratas estão tirando as pessoas de casa. Muita gente lucra com isso, como os donos de hotéis, restaurantes, locadoras de automóveis e comércio em geral. Alguém perde? Talvez os psicanalistas. Poucas coisas são tão terapêuticas como sair do casulo. Enquanto os ônibus, trens e aviões continuarem lotados, os divãs correm o risco de ficar às moscas.

    Lago Como

    Viajar não é sinônimo de férias, somente. Não basta encher o carro com guarda-sol, cadeirinhas, isopores e travesseiros e rumar em direção a uma praia suja e superlotada. Isso não é viajar, é veranear. Viajar é outra coisa. Viajar é transportar-se sem muita bagagem para melhor receber o que as andanças têm a oferecer. Viajar é despir-se de si mesmo, dos hábitos cotidianos, das reações previsíveis, da rotina imutável, e renascer virgem e curioso, aberto ao que lhe vier a ser ensinado. Viajar é tornar-se um desconhecido e aproveitar as vantagens do anonimato. Viajar é olhar para dentro e desmascarar-se.

    Pode acontecer em Paris ou em Trancoso, em Tóquio ou Rio Pardo. São férias, sim, mas não só do trabalho: são férias de você. Um museu, um mergulho, um rosto novo, um sabor diferente, uma caminhada solitária, tudo vira escola. Desacompanhado, ou com amigos, uma namorada, aprende-se a valorizar a solidão. Em excursão, não. Turmas se protegem, não desfazem vínculos, e viajar requer liberdade para arriscar.

    Viajando você come bacon no café da manhã, usa gravata para jantar, passeia na chuva, vai ao super de bicicleta, faz confidências a quem nunca viu antes. Viajando você dorme na grama, usa banheiro público, come carne de cobra, anda em lombo de burro, costura os próprios botões. Viajando você erra na pronúncia, troca horários, dirige do lado direito do carro. Viajando você é reiventado.

    É impactante ver a Torre Eiffel de pertinho, os prédios de Manhattan, o lago Como, o Pelourinho. Mas ver não é só o que interessa numa viagem. Sair de casa é a oportunidade de sermos estrangeiros e independentes, e essa é a chave para aniquilar tabus. A maioria de nossos medos são herdados. Viajando é que descobrimos nossa coragem e atrevimento, nosso instinto de sobrevivência e conhecimento. Viajar minimiza preconceitos. Viajando não têm endereço, partido político ou classe social. São aventureiros em tempo integral.

    Viaja-se mais no Brasil, dizem as reportagens. Espero que sim. Mas que cada turista saiba espiar também as próprias reações diante do novo, do inesperado, de tudo o que não estava programado. O que a gente é, de verdade, nunca é revelado nas fotos.

    Janeiro de 1998 – Jornal Zero Hora


    Fim de ano

    28/Dezembro/2007

    Dentre todos os bons livros que descobri esse ano, alguns já tem lugar certo e uma categoria própria como livros que não vou esquecer: A Garota do Tambor, Quem somos nós?, Fahrenheit 451 e por aí vai. Mas um me parece mais adequado para o fim do ano: O jogo das contas de vidro, Herman Hesse. É o tipo de livro que marca um antes e depois na vida das pessoas.

    Ele conta a biografia de José Servo, que foi Magister Ludi, ou seja, o representante supremo do jogo que dá nome ao livro e exemplo da superioridade daquela sociedade monástica. Um sujeito que diz que a educação deforma as pessoas e que ainda assim tem vontade de educar, uma pessoa que, literalmente, dedicou a vida a servir as pessoas. E, enquanto vemos o desenrolar da vida de Servo nos vemos pensando, refletindo sobre nossa própria maneira de encarar a vida, se queremos ser apenas mais uma dessas pessoas que são egoístas ao extremo, se vamos tentar ter a bondade do olhar do Mestre da Música, o que raios vamos querer de nossas vidas…

    E aí, o que vão fazer de 2008?

    —————-
    Now playing: Diversos – Joan Osborne / One Of US
    via FoxyTunes


    O Corvo (Edgar Allan Poe)

    29/Agosto/2007

    O Corvo

    Em certo dia, à hora, à hora

    Da meia-noite que apavora,

    Eu caindo de sono e exausto de fadiga,

    Ao pé de muita lauda antiga,

    De uma velha doutrina, agora morta,

    Ia pensando, quando ouvi à porta

    Do meu quarto um soar devagarinho

    E disse estas palavras tais:

    “É alguém que me bate à porta de mansinho;

    Há de ser isso e nada mais.”

    Ah! bem me lembro! bem me lembro!

    Era no glacial dezembro;

    Cada brasa do lar sobre o chão refletia

    A sua última agonia.

    Eu, ansioso pelo sol, buscava

    Sacar daqueles livros que estudava

    Repouso (em vão!) à dor esmagadora

    Destas saudades imortais

    Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,

    E que ninguém chamará jamais.

    E o rumor triste, vago, brando,

    Das cortinas ia acordando

    Dentro em meu coração um rumor não sabido

    Nunca por ele padecido.

    Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,

    Levantei-me de pronto e: “Com efeito

    (Disse) é visita amiga e retardada

    Que bate a estas horas tais.

    É visita que pede à minha porta entrada:

    Há de ser isso e nada mais.”

    Minhalma então sentiu-se forte;

    Não mais vacilo e desta sorte

    Falo: “Imploro de vós – ou senhor ou senhora -

    Me desculpeis tanta demora.

    Mas como eu, precisando de descanso,

    Já cochilava, e tão de manso e manso

    Batestes, não fui logo prestemente,

    Certificar-me que aí estais.”

    Disse: a porta escancaro, acho a noite somente,

    Somente a noite, e nada mais.

    Com longo olhar escruto a sombra,

    Que me amedronta, que me assombra,

    E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,

    Mas o silêncio amplo e calado,

    Calado fica; a quietação quieta:

    Só tu, palavra única e dileta,

    Lenora, tu como um suspiro escasso,

    Da minha triste boca sais;

    E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;

    Foi isso apenas, nada mais.

    Entro co’a alma incendiada.

    Logo depois outra pancada

    Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela:

    Seguramente, há na janela

    Alguma coisa que sussurra. Abramos.

    Ela, fora o temor, eia, vejamos

    A explicação do caso misterioso

    Dessas duas pancadas tais.

    Devolvamos a paz ao coração medroso.

    Obra do vento e nada mais.”

    Abro a janela e, de repente,

    Vejo tumultuosamente

    Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.

    Não despendeu em cortesias

    Um minuto, um instante. Tinha o aspecto

    De um lord ou de uma lady. E pronto e reto

    Movendo no ar as suas negras alas.

    Acima voa dos portais,

    Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;

    Trepado fica, e nada mais.

    Diante da ave feia e escura,

    Naquela rígida postura,

    Com o gesto severo – o triste pensamento

    Sorriu-me ali por um momento,

    E eu disse: “Ó tu que das noturnas plagas

    Vens, embora a cabeça nua tragas,

    Sem topete, não és ave medrosa,

    Dize os teus nomes senhoriais:

    Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”

    E o Corvo disse: “Nunca mais.”

    Vendo que o pássaro entendia

    A pergunta que lhe eu fazia,

    Fico atônito, embora a resposta que dera

    Dificilmente lha entendera.

    Na verdade, jamais homem há visto

    Coisa na terra semelhante a isto:

    Uma ave negra, friamente posta,

    Num busto, acima dos portais,

    Ouvir uma pergunta e dizer em resposta

    Que este é o seu nome: “Nunca mais.”

    No entanto, o Corvo solitário

    Não teve outro vocabulário,

    Como se essa palavra escassa que ali disse

    Toda sua alma resumisse.

    Nenhuma outra proferiu, nenhuma,

    Não chegou a mexer uma só pluma,

    Até que eu murmurei: “Perdi outrora

    Tantos amigos tão leais!

    Perderei também este em regressando a aurora.”

    E o Corvo disse: “Nunca mais.”

    Estremeço. A resposta ouvida

    É tão exata! é tão cabida!

    “Certamente, digo eu, essa é toda a ciência

    Que ele trouxe da convivência

    De algum mestre infeliz e acabrunhado

    Que o implacável destino há castigado

    Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,

    Que dos seus cantos usuais

    Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,

    Esse estribilho: “Nunca mais.”

    Segunda vez, nesse momento,

    Sorriu-me o triste pensamento;

    Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;

    E mergulhando no veludo

    Da poltrona que eu mesmo ali trouxera

    Achar procuro a lúgubre quimera.

    A alma, o sentido, o pávido segredo

    Daquelas sílabas fatais,

    Entender o que quis dizer a ave do medo

    Grasnando a frase: “Nunca mais.”

    Assim, posto, devaneando,

    Meditando, conjecturando,

    Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,

    Sentia o olhar que me abrasava,

    Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,

    Com a cabeça no macio encosto,

    Onde os raios da lâmpada caiam,

    Onde as tranças angelicais

    De outra cabeça outrora ali se desparziam,

    E agora não se esparzem mais.

    Supus então que o ar, mais denso,

    Todo se enchia de um incenso.

    Obra de serafins que, pelo chão roçando

    Do quarto, estavam meneando

    Um ligeiro turíbulo invisível;

    E eu exclamei então: “Um Deus sensível

    Manda repouso à dor que te devora

    Destas saudades imortais.

    Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”

    E o Corvo disse: “Nunca mais.”

    “Profeta, ou o que quer que sejas!

    Ave ou demônio que negrejas!

    Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno

    Onde reside o mal eterno,

    Ou simplesmente náufrago escapado

    Venhas do temporal que te há lançado

    Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo

    Tem os seus lares triunfais,

    Dize-me: “Existe acaso um bálsamo no mundo?

    “E o Corvo disse: “Nunca mais.”

    “Profeta, ou o que quer que sejas!

    Ave ou demônio que negrejas!

    Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!

    Por esse céu que além se estende,

    Pelo Deus que ambos adoramos, fala,

    Dize a esta alma se é dado inda escutá-la

    No Éden celeste a virgem que ela chora

    Nestes retiros sepulcrais.

    Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”

    E o Corvo disse: “Nunca mais.”

    “Ave ou demônio que negrejas!

    Profeta, ou o que quer que sejas!

    Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!

    Regressa ao temporal, regressa

    À tua noite, deixa-me comigo.

    Vai-te, não fica no meu casto abrigo

    Pluma que lembre essa mentira tua,

    Tira-me ao peito essas fatais

    Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”

    E o Corvo disse: “Nunca mais.”

    E o Corvo aí fica; ei-lo trepado

    No branco mármore lavrado

    Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.

    Parece, ao ver-lhe o duro cenho,

    Um demônio sonhando. A luz caída

    Do lampião sobre a ave aborrecida

    No chão espraia a triste sombra; e fora

    Daquelas linhas funerais

    Que flutuam no chão, a minha alma que chora

    Não sai mais, nunca, nunca mais!

    Allan Poe

    (Tradução de Machado de Assis)

     

     

     

    Sublime.

    Para aqueles que tiveram saco pra ler tudo eu repito: sublime.

     


    Fahrenheit 451

    26/Agosto/2007

    “Você precisa entender que nossa civilização é tão vasta que não podemos permitir que nossas minorias sejam transtornadas e agitadas. Pergunte a si mesmo: O que queremos neste país, acima de tudo? as pessoas querem ser felizes, não é certo?
    (…)
    É para isso que vivemos não acha? Para o prazer, a excitação? E você tem de admitir que nossa cultura fornece as duas coisas em profusão.”

    Esse parágrafo me fez refletir muito hoje, sobre coisas que vão da censura à falta do hábito de ler, mas vou tentar me focar apenas na idéia do “carpe diem” que ele passa.
    A nossa sociedade está de fato se encaminhando para o imediatismo. As pessoas querem coisas e querem agora. Como eu já li algures estamos na era do “eu mereço”. Eu não tenho nada contra essa idéia de felicidade passageira, o problema é que a maior parte das pessoas a conquista por não pensar, ou melhor, pensar no que a televisão quer que pense. Ou não pensa? Bem, esse debate não vem ao caso. As pessoas são capazes de perder horas de seus dias assistindo televisão: novela, futebol. Quem, além de um seleto grupo de pessoas, vai querer asssitir ao Discovery Channel e quem do pequeno grupo que quer pode bancar isso? Não muita gente, com certeza. Que incentivos a nossa sociedade dá ao teatro, à leitura? Praticamente nenhum. Por que? Porque são poucas as pessoas que se dão ao trabalho de ler um livro, são poucas as que desenvolvem um gosto real pela leitura, assim como são poucas as pessoas com paciência para assitir uma interpretação de Macbeth. É tão mais simples ficar em casa recebendo informações inúteis e frívolas. Mesmo agora na “era digital” (dos excluídos digitais também…) quantas pessoas se dão ao trabalho de pesquisar algo de útil? Orkut, Msn, é isso que chega às massas, porque essa é a moda. Você tem que ter isso. E tem que ter visto o último capítulo da novela. Afinal do que você espera que as pessoas falem com você? Einstein? Tudo isso é na verdade uma grande bola de neve. Livros são caros porque poucos leêm, poucos leêm porque livros são caros. Tudo isso foi “superado” no caso da indústria fonográfica, CD’s são caros pois bem, baixemos música na internet. Mas isso porque a música que a maior parte das pessoas ouve não é porque decididamente gosta, música toca no rádio. Livro não toca no rádio. Você tem que se dar ao trabalho de folheá-lo, de se concentrar, é diferente de baixar um funk no finado Kazaa e sair por aí dançando coisas como “Vai popozuda”. Isso é apenas diversão, é o aqui e agora. Ler te obriga a pensar, a refletir, com que intuito? Nenhum imediato. Bingo! Voltamos para nossa sociedade imediatista. Carpe diem, dizem eles. Têm alguma noção de onde vem essa frase? Não, é claro que não, mas ouviram e acharam bonito.”Reflete” o espírito deles, eles querem “pegar geral”, beber todas e por aí vai…
    Depois desse meu desabafo revoltado, podem vocês voltar a seus afazeres, e eu aos meus. Ainda tenho muito o que ler!

    PS: A frase carpe diem é de um poema do Horácio, grego.
    PPS: Para quem não sabe Fahrenheit 451 é um livro, ok?

    Postado por Thais


    Livros…

    22/Maio/2007

    Livros, livros, mais livros.
    Ninguém aqui precisa ser especialista em buracos negros para saber que essa é a minha área.
    Vamos lá.
    Tem meia dúzia de autores que tem me chamado a atenção. Mas, principalmente, a etíope Marina Colasanti. Ela não tem tantas publicações… nem é tão famosa… mas seus contos, pelo menos para mim, tem uma leveza indescritível, ao mesmo tempo que fazem críticas sérias a nossa sociedade. Devaneio de leitora, talvez. Um conto é demais para apenas um post então aqui vai um poema:

    Preciso, para

    Preciso que um barco atravesse o mar
    lá longe
    para sair dessa cadeira
    para esquecer esse computador
    e ter olhos de sal
    boca de peixe
    e o vento frio batendo nas escamas.
    Preciso que uma proa atravesse a carne
    cá dentro
    para andar sobre as águas
    deitar nas ilhas e
    olhar de longe esse prédio
    essa sala
    essa mulher sentada diante do computador
    que bebe a branca luz eletrônica
    e pensa no mar.

    Postado por Thais


    O Jardim

    21/Maio/2007

    Então, essa é minha poesia preferida do Lovecraft, e, não duvido muito, minha poesia preferida de um modo geral. Um tanto dramática, mas essa sou eu. =)
    Espero que apreciem.

    O Jardim

    Existe um jardim antigo com o qual às vezes sonho,
    Sobre o qual o sol de maio despeja um brilho tristonho;
    Onde as flores mais vistosas perderam a cor, secaram;
    E as paredes e as colunas são idéias que passaram.
    Crescem heras de entre as fendas, e o matagal desgrenhado
    sufoca a pérgula, e o tanque foi pelo musgo tomado.
    Pelas áleas silenciosas vê-se a erva esparsa brotar,
    E o odor mofado de coisas mortas se derrama no ar.

    Não há nenhuma criatura viva no espaço ao redor,
    E entre a quietude da cerca não se ouve qualquer rumor.
    E, enquanto ando, observo, escuto, uma ânsia às vezes me invade
    de saber quando é que vi tal jardim numa outra idade.
    A visão de dias idos em mim ressurge e demora,
    quando olho as cenas cinzentas que sinto ter visto outrora.
    E, de tristeza, estremeço ao ver que essas flores são
    minhas esperanças murchas – e o jardim, meu coração.

    A propósito, cliquem aqui e aproveitem as obras disponíveis em pdf.

    bluebells-hawkes-wood-1995.jpg

    Imagem bonita de um campo de “bluebells”, não sei como se chamam aqui.

    Postado por Guida


    Com a Lua

    19/Maio/2007

     Com a lua

    Odeio a Lua – temo-a – porque quando brilha sobre certas coisas que nos são familiares e queridas transformas-as , por vezes , em cenários estranhos e odiosos.
    Tudo aconteçeu num verão fantasmagórico quando a Lua reflectia o seu brilho sobre o jardim por onde eu vagueava; esse fantasmagórico verão de flores narcóticas e mares húmidos, de folhagens que surgeriam sonhos selvagens e coloridos. Enqquanto caminhava junto á rasa e cristalina corrente vislumbrei águas se agitassem e corressem,irresistivelmente, para estranhos oceanos que não se encontravam no nosso mundo. Silenciosas e borbulhantes, límpidas e malignas, estas águas amaldiçoadas pelas Lua, apressavam-se na direcção de algo que eu não podia conceber, enquanto que das margens , brancos rebentos de flores de lótus se precipitavam na corrente ao sabor do vento nocturno e opiáceo, arrastando-se horrivelmente por debaixo dos arcos da ponte trabalhada, olhando-me de fvolta na sinistra resignação das calmas caras dos mortos.
    Eu que corria agora na margem,desfazendo na minha marcha descuidada flores adormecidas, enlouquecido , cada vez mais pelo medo do deconhecido e pelo brilho das caras dos mortos, reconheci que aquele jardim não tinha fim sob aquela Lua; porque onde de dia se erguiam paredes , agora apenas se alongavam infinidades de árvores e de caminhos , de flores e de arbustos, ídolos de pedra e templos , e curvas apertadas dessa corrente de luz amareloa passeando entre margens de relva e por debaixo de grotescas pontes de mármore. Os lábios das caras mortas das flores de lotús sussurravam com tristeza para eu as seguir.Não abrandei o meu passo enquanto a corrente não se tornou num rio e se juntou, por entre as terras alagadas com ervas altas que ondulavam o seu corpo e praias de areias que brilhavam , á margem de um vasto e inominável mar.
    Sobre aquele mar a odiosa Lua brilhava, e pairava um estranho perfumesobre as suas ondas silenciosas.Quando reparei que as caras das flores de lotús desapareciam nestas, desejei ter uma rede para que pudesse capturá-las e assim descobrir, atravéz delas, os segredos que a Lua me trouxera para a noite. Mas assim que a LUa caminhou para Oeste e a maré quieta recuou das melancólitas margens,apercebi-me,á luz da lua, da presença de espirais antigas que as ondas tinham deixado quase a descoberto, bem como de colunas brancas festivamente cobertas por algas verdes.Reconhecendo que era para este local submerso que todos os mortos se tinham dirigido ,tremi e não desejei mais falar com as caras das flores de lotús.
    No entanto, quando vi , longínquo mar , um condor negro que descia dos céus em busca de descanso num imenso coral, teria reunido coragem para lhe perguntar por aqueles que conheci quando foram vivos. Esta pergunta lhe teria feito, não estivesse ele tão longe. Mas estava muito longe e nem sequer o consegui ver quando ele se aproximou do gigantesco coral.
    Assim me quedei , observando a maré a correr sob aquela Lua que se afundava, iluminando as espirais, as torres e os telhados daquela cidade que expirava,sem vida. Enquanto observava, tentava fechar as minhas narinas ao perfme arrebatador, ao cheiro nauseabundo de todos os mortos do mundo;pois que, na verdade,toda a carne dos cemitérios se tinha reunido neste lugar esquecido e remoto, para servir de repasto ás inchadas critaturas desse mar.
    A maldita Lua pairava baixa nos céus sobre todos estes horrores. Mas as criaturas do mar não precisavam da sua luz para se alimentarem. Enquanto observava os redemoinhos , que denunciavam a actividade infame das criaturas no seu seiomfui tomado por um terror ainda mais profundo ao sentir um arrepio vindo de longe , de onde o condor pousara, como se a minha carne tivesse pressentido algo que os meus olhos ainda não tinham visto . O meu corpo , porém, não tremeu sem razão , porque assim que levantei meus olhos reparei que as águas tinham descido muito, deixando á vista todo aquele coral imenso do qual anteriormente eu só tinha vislumbrado a superficie.E quando vi que o coral nada mais era do que a coroa de basalto negro de um chocante Ícone, cuja testa monstruosa aparecia agora ao luar e cujos viciosos cascos deviam repercutir o seu gotejar infernal a milhas de distância, gritei e tornei a gritar no terror de que aquela cara oculta se levantasse das águas e que os seus olhos , ainda escondidos, me procurassem na sinuosa distância daquela maliciosa e traiçoeira Lua amarela.
    Para escapar a este monstro impiedoso mergolhei convicto e sem hesitar naquelas águas fétidas onde, por entre paredes de algas e ruas submersas , as criaturas obesas do mar se deliciavam, devorando a carne de todos os mortos do mundo.

    H.P. Lovecraft.

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    Na imagem, EU!

    Postado por Guida